"Quem me dera encontrar o verso puro, o verso altivo e forte,
estranho e duro, que dissesse a chorar, isto que sinto!"
Florbela Espanca


Pintassilgo

O pintassilgo na murada estreita
Cantando um canto sereno
Ninguém o vê de tão pequeno
Só o gato na porta à espreita

A avezinha estufa o peito amarelo
Não sabendo que o bichano a espia
Só sei que não é por idolatria
Ou por caridade a ânsia de tê-lo

Movido pelo instinto, o pintassilgo
Rodopia, alça vôo pegando um vento
Como que zombando do gato lento


Brejeira, a minha viola caipira
Geme quando minha mão treme
Desdobrando em tristeza a minha lira


Distância

Ah... mas estamos distantes
Ainda é cedo para o encontro
E estamos saudosos
O calor é intenso
E estamos tão sós
Nem parece que nos amamos
Já estamos esquecidos
Dos sabores das bocas
E estamos um pouco cansados
Dessa espera tamanha
Do amor que demora
Que até estamos chorosos
Nem me lembro seu nome...
E nem tenho a lembrança
Dos dias de gozo
E segredos trocados
De amor compartilhado
No dia a dia...
Só estamos vivendo
Uma vida sem sal sem açúcar


Lavanda

Perdi-te num campo de lavanda
E o dia estava tão sereno!
Como podia prever tão triste passagem?
Em tempo de puerícia, de medra...
E eu estava tão serena!
Ah, que esperança tinha eu!
Previra sim, que a vida me daria
Infortúnios, um ou outro...
Um aqui, outro ali...
Mas não um tão lastimável
Num dia assim sereno
Num campo de lavanda
De perfume suave, e brisa leve...
E como chorar? E agora até diria:
Por que lastimar?
Diante de tal leveza
Suave tristeza
E serenidade
Lilases


Culpa

Porto ou cárcere? Recanto infernal!
Sou moribundo no sujo leito
Dor incessante qual vala no peito
Quando escolhi entre o bem e o mal?

Esse choro baixo, tímido, parco...
Pinga em ritmo lento e não acalma
E o fel envenenando minha alma
Só, sem socorro, sou réu laico!

"A culpa é um lobo feroz
Que come o pai depois o filho"
Já Saramago no seu estribilho
Para uma dura verdade, esta fala atroz!

Meu sangue já verte, ainda quente
É tarde para a minha absolvição
Tarde... é meu o crime reincidente

Vários demônios cercam minha casa
Povoam meus sonhos desde a infância
Há muito sou pássaro abatido, sem asa

(Imagem retirada do site MIDWESTLOVE)


Desejo

Crepita voluntariosa a chama
dança a valsa com Prometeu,
lança um fio de luz sobre a cama,
é noite, e a volúpia ainda não cedeu.

Não cedeu aos apelos do sono,
não cedeu ao cansaço do corpo,
mão tecendo seda de carinhos monótonos.
Meus olhos fitam o escuro... sou um torso...

Luas de crepon, rutilantes,
sobrevoam o teto da sala,
levam o espírito a vales distantes,
sobem aos céus, descem às valas.

No sobe e desce do exercício desvairado,
no aconchego de um ser por si só aliciado...
a vela estremece, o corpo chama!

Patí Costanti


Passarinho triste, de asa tesa
Labuta entre o mel e a cicuta
Não voa mais... tem a alma presa


Quem me dera

Quem me dera talhar a pedra,
fazer no gelo uma escultura bela.
Quem me dera ao pintar a tela,
dar luz ao negro que me integra

Vai chover prata no meu telhado,
meus cabelos hão de ficar brancos
e quando eu traduzir meu pranto
terei o meu verso enfim lapidado

Não que eu queira renegar a sina,
não que eu queira dizer: Não mais!,
ao meu ofício que não passa de ais

Meu coração se cansou de devanear
visitando campos chuvosos e frios...
Quem me dera experimentar um estio!

(Respeitosamente, em homenagem à Florbela Espanca, andarilha de campos íngremes e tortuosos, e quem tão poucos estios experimentou)


Todas as mulheres

Todas as mulheres que vivem em mim
Desenhos criados a nanquim
Num dar-se e tomar-se, nada passivas
Trocam prazer em leito de madressilvas
Apaixonam-se todas no verão
Cantando numa mesma afinação
Choram silencioso choro parco
Porque carregam o mesmo fardo
Lamentam a fome de seus filhos
Intentam abastecer os silos
Estes silos valados nunca bastam
Já tanta fome e peste se alastram!
Há um fardo e nada o alivia
Só o choro, torrente de água fria
As minhas, são mulheres distintas
Mas congruentes em vidas e tinta
Transcritas no papel em risco preto
Cúmplices num roteiro nada secreto


Sobras da guerra

Cimento, pó, pedras aos entulhos
Um encima do outro sem dó
Nesta confusão alguns humanos
Resgatam restos, sinais de vida,
Lembranças e relíquias
Do que um dia foi uma morada,
Uma sede, escola ou fundação
Onde um dia houve começo
Hoje fazem rescaldo de sentimentos
No caos, onde impera a indignidade
Alguma tentativa de reconstrução

Patí Costanti

(imagem de Miguel Portas em sua viagem à Nahr El Bared, norte do Líbano)

in http://www.miguelportas.net/blog/?p=337


Sonho

Os meus são sonhos inquisidores
Está vindo lá, a comitiva do auto da fé
Eu, na minha indolência, não me supero
E nem toda contrição me alcança

Não tenho sossego enquanto durmo
E num cenário de abuso e morte
Em luto e tristeza, vivo quase morro
Morro quase vivo, em depreciação

O homem enterrado-vivo chama
Ouço-o, anseio, mas não o salvo
A mulher que sou também chora
Braços cotos, doída, mas renitente

Em mim uma voz auspiciosa clama
Embora apática a força, fraca, esvaída
Ainda há fogo, ainda há chama.

* * *


Elementos

Um ser criado do pó cor terracota
Alma amiga de uma terra antiga
Viajante de luz desde a era remota

***

Dançando molemente em espiral
Encosta abaixo água vira riacho
Depois acima pra virar temporal

***

No calor do fogo construído
O amor arrefece, mas não esquece
Sentimento de apego atribuído

***

Baila no ar meu desejo tão leve
E a libido voa em direção ao estampido
Vento quente enternecendo neve

***

Patí Costanti


Debandada

Minhas palavras em revoada
Seguem o rastro do planador
Meus sentidos preterem a dor
Aquietam, sou alma calada

Minhas palavras em revoada
Montam versos cadenciados
Sentimentos recuperados
De outra existência, vida passada

Os meus versos em debandada
Vão-se para um mundo paralelo
Como cartas recebem um selo
Remetidas a terras inexploradas

Os meus versos intentam pouso
Ponto final para as minhas reticências

Patí Costanti


Na primavera o sabiá-laranjeira
Flauta capoeira no ingá a cantar
Brasileiro sem eira nem beira

Patí Costanti


Águas de abril

Descendo pelas pedras
Água mole brilhante e pura
Água que corre a serra
Lava, molha, alimenta e cura

Das lágrimas do meu choro
Água quente jorrando sem pena
Rola lenta lavando os poros
Minha alma sofrida fica serena

A mata toda está em festa
Os pássaros cantam celebram abril
Da gruta de pedra, vi pela fresta
Sabiá-laranjeira deu um rodopio

Nas águas que batizei os meus pés
Das mesmas águas bebeu a rês
Dádiva abençoada, elemento essencial

Patí Costanti


Ponto de Xangô

É água nascente da ponte
Um espinho da flor
Do seu medo nasceu a coragem de ser vencedor
Punhau à mão
No peito o escudo mais fiel,
de quem na terra concedeu o céu
Foi sete pedreiras que ele aprendeu a quebrar
Com a faísca da fúria
O raio da chuva e a luz do luar
Lavou o corpo com o vinho amargo do suor
E fez do próprio bem
E todos nós também ser o melhor
por de tras daquela serra
tem uma linda cachoeira
é de meu pai Xangô
que arrebentou sete pedreiras.

(autoria desconhecida)


Floresce a libido

Floresce a libido
Manacá ao jardim se dá
Multicolorido

Valquíria Gesqui Malagoli
in http://reval.nafoto.net/

***

Por que será?

(Para Valquíria G. Malagoli)

Em versos curtos Marília cantou
A beleza roxa do manacá
O que mais ela viu na arvorezinha?
Será que viu cantando o sabiá?

Eu canto inspirada no haicai
Nascido na cerca do seu quintal
Poetiza amiga, por que não dá
Outras flores no meu jirau?

Só o manacá roxo nasce aqui
É então, razão de tanta libido
Semeia Marília, um ipê para mim!

Patí Costanti

***

Resposta da poeta

Era uma vez um manacá.
Nele, meus versos plantei, sós.
Dali, brotaram, após,
os seus - movidos pela pá
da inspiração fertilizante...
E eis que a flor virou diamante

Valquíria Gesqui Malagoli

***

(de minha parte, dedicado à Nanã, linda Flor do Manacá)


Placebo

Um gosto estranho na boca
Gosto de doce ficando amargo no final
O doce da fruta madura, quase passada
Aviso de tempo vencido, um sinal

Meu coração anuncia um desenlace
O tempo corroendo a alucinação
Precipito-me numa louca corrida
Não quero dissipar esta ilusão

Não quero ver meus sonhos dissolvidos
Nem desterrados nas plagas do medo
Quero o efêmero, uma vida de quimeras
O eterno instante de engano, meu placebo

Os sentimentos torpes deslizam no peito
Nem rio, nem sofro, apenas de longe
Vejo-os, e já sei que agonizam no leito

Patí Costanti


Fado Marcela

É com a voz que eu traço
Meu caminho pelo mundo –
Eu canto e num segundo
Todo esse mundo eu abraço!

E desses fados que eu faço
Fica sempre um pouco em mim
Dessa saudade sem fim
Que aumenta a cada passo!

No fado é que eu me desfaço
Da tristeza mais cruel:
Na escuridão, vejo o céu;
Na solidão, um abraço.

Mas sempre falta um pedaço
No coração de quem ama...
Lanço-me às ruas da Alfama
Que o sonho constrói no espaço!

(Robertson Frizero Barros)
em: http://locutoriodofrizero.blogspot.com/

***

Resposta para um fado

Na Alfama você se lançou por inteiro
Andando por aquelas ruas antigas
Ruas de saudosos, bêbados marinheiros
Sonhando com sua fadista amiga

Seus ouvidos querendo o fado
Seus olhos querendo ver as casas
E os sobrados tristes do Chiado
Da Lisboa linda que te deu asas!

Aproveito o traço da sua voz
Desenho meu caminho de sonhos
Meu marinheiro e eu estamos a sós
O devaneio de amor, um olhar risonho...

Mas meu marinheiro é de Recife
Esta outra cidade antiga, sem igual
Onde homens sobrevivem sem o vinho
E sem os doces fados de Portugal.

Patí Costanti